Crescimento acelerado de empresas expõe aumento de conflitos patrimoniais e sucessórios em estruturas que nunca foram formalmente organizadas

Nos últimos anos, milhares de empresas brasileiras cresceram, ampliaram faturamento e aumentaram patrimônio em um ritmo acelerado. O problema é que, em muitos casos, a estrutura jurídica e societária não acompanhou essa evolução.

Na prática, empresários expandiram operações, adquiriram imóveis, criaram novas empresas e acumularam patrimônio sem reorganizar regras societárias, sucessão familiar ou separação entre bens pessoais e empresariais.

Enquanto o cenário econômico permanecia favorável, essa desorganização passava despercebida.
O problema começou a aparecer nos momentos de transição.

Separações, falecimentos, conflitos societários e disputas familiares passaram a impactar diretamente empresas que, embora financeiramente sólidas, nunca haviam estruturado formalmente a própria governança patrimonial.

Dados do IBGE e do Sebrae mostram que aproximadamente 90% das empresas brasileiras possuem perfil familiar.

Apesar disso, levantamento da PwC aponta que apenas 36% dessas empresas possuem planejamento sucessório estruturado.

O reflexo aparece na continuidade dos negócios. Segundo dados do Banco Mundial, apenas 30% das empresas familiares chegam à segunda geração e menos de 15% conseguem alcançar a terceira.

“Muitas empresas cresceram mais rápido do que a própria capacidade de organização patrimonial e societária”, afirma Adriana Barros, advogada do escritório Ribeiro e Barros, com atuação em planejamento patrimonial, holding familiar e Direito de Família.

Segundo ela, o problema raramente começa no patrimônio em si.

“O conflito normalmente começa na ausência de regra. Enquanto todos concordam, a estrutura parece funcionar. Mas basta uma mudança mais sensível para que a falta de definição passe a impactar diretamente a continuidade da empresa.”

O aumento do patrimônio acumulado nos últimos anos também ampliou a complexidade dessas disputas.

Dados da Anbima mostram crescimento de 18% no número de brasileiros com patrimônio financeiro acima de R$ 5 milhões entre 2022 e 2024. Ao mesmo tempo, escritórios especializados em planejamento patrimonial registraram aumento significativo na procura por holdings familiares e reorganização societária.

Segundo Adriana, muitos empresários ainda associam holding exclusivamente à redução tributária, quando o principal ganho está relacionado à organização e previsibilidade.

“Uma estrutura patrimonial organizada reduz o desgaste familiar, melhora a tomada de decisão e protege a continuidade do negócio em momentos mais delicados.”

A preocupação ganhou força especialmente após a pandemia, período em que muitas empresas aceleraram o crescimento, reorganizaram operações e passaram a lidar com estruturas familiares mais complexas.

Ao mesmo tempo, aumentou o volume de disputas envolvendo sucessão, participação societária e patrimônio compartilhado.

Para especialistas, parte do problema está na dificuldade cultural de transformar relações familiares em estruturas empresariais formalmente organizadas.

“Muitas empresas familiares continuam funcionando com base em acordos implícitos. O problema é que patrimônio elevado e crescimento acelerado aumentam também o impacto da falta de definição”, afirma Adriana.

Na avaliação dela, empresários passaram anos focados em expansão, faturamento e crescimento operacional, mas ainda dedicam pouca atenção à organização jurídica da própria estrutura patrimonial.

“O empresário normalmente pensa no crescimento da empresa todos os dias. Mas poucos param para discutir como proteger esse patrimônio e garantir continuidade quando surgem mudanças familiares, societárias ou sucessórias.”

Segundo levantamento do Insper, disputas familiares e sucessórias estão entre os fatores mais relevantes para descontinuidade de empresas familiares no Brasil.

Para Adriana, o cenário atual deve acelerar um movimento de profissionalização das estruturas patrimoniais e societárias.

“Muitas empresas perceberam que patrimônio sem organização pode se transformar rapidamente em fonte de conflito, desgaste e instabilidade para o próprio negócio.”

Na avaliação de especialistas, a tendência é que empresas familiares passem a revisar não apenas questões tributárias, mas modelos de governança, regras societárias e planejamento sucessório.

Porque, para muitas organizações, o desafio deixou de ser apenas crescer.

E passou a preservar o que foi construído.

(Fotos: iStock)

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