Casal alertou seguidores após descobrir conteúdo falso produzido com inteligência artificial; advogados explicam como identificar golpes, quais crimes podem estar envolvidos e o que fazer diante de uma fraude

Flávia Alessandra e Otaviano Costa usaram as redes sociais para alertar os seguidores sobre um golpe que utiliza inteligência artificial para reproduzir imagens, vozes e características de pessoas conhecidas. O casal denunciou a circulação de conteúdos falsos associados à sua imagem e reforçou um alerta que já começa a fazer parte da rotina de quem vive conectado: nem tudo o que parece verdadeiro foi realmente publicado ou dito por aquela pessoa.

A evolução das ferramentas de inteligência artificial tornou mais fácil produzir vídeos, áudios e imagens convincentes. Quando essas tecnologias são utilizadas por criminosos para criar falsas ofertas, pedidos de dinheiro ou supostos depoimentos de celebridades, o objetivo costuma ser explorar justamente a confiança que a imagem daquela pessoa transmite.

Para o advogado criminalista Dr. Marcos Sá, graduado pela Universidade de São Paulo (USP-Ribeirão Preto) e pós-graduando em Direito Penal Econômico pela Fundação Getulio Vargas (FGV-SP), o uso da inteligência artificial não elimina a responsabilidade criminal de quem está por trás da fraude.

“A tecnologia utilizada para praticar o golpe pode mudar, mas a conduta criminosa continua sendo analisada a partir do comportamento de quem produz, divulga ou utiliza aquele conteúdo para obter vantagem indevida. A inteligência artificial pode funcionar como uma ferramenta para a execução da fraude, mas não transforma uma prática ilícita em algo permitido.”

Vídeo falso pode parecer cada vez mais real

Durante muito tempo, identificar uma fraude digital era relativamente simples. Erros de edição, imagens distorcidas e movimentos artificiais costumavam denunciar conteúdos falsificados. Com a evolução da inteligência artificial generativa, porém, esses sinais ficaram menos evidentes.

É possível reproduzir características faciais, voz, gestos e até a maneira de falar de uma pessoa. Isso aumenta o potencial de convencimento das vítimas.

“O grande problema é que a tecnologia reduziu algumas das barreiras que dificultavam a falsificação. Um conteúdo bem produzido pode convencer uma pessoa que não tenha ferramentas ou conhecimento técnico para verificar sua autenticidade. Por isso, a análise precisa considerar não apenas a aparência do vídeo, mas principalmente a origem daquela informação e o contexto em que ela foi publicada”, explica Dr. Fábio Aby Azar, advogado criminalista graduado pela Universidade Estadual Paulista (UNESP), pós-graduado em Processo Penal pela Universidad de Salamanca e pós-graduando em Direito Penal Econômico pela FGV-SP.

Golpe com rosto de famoso pode envolver diferentes crimes

Quando a imagem de uma celebridade é utilizada sem autorização para convencer alguém a realizar uma transferência, comprar um produto ou fornecer dados pessoais, diferentes consequências jurídicas podem surgir, dependendo de como a fraude foi estruturada.

Entre as possibilidades está o estelionato, especialmente quando o uso da identidade falsa tem como finalidade induzir a vítima em erro para obter vantagem econômica.

“O enquadramento jurídico depende das circunstâncias concretas. Se alguém utiliza artificialmente a imagem ou a voz de uma pessoa para induzir outra a erro e obter vantagem patrimonial, podemos estar diante de uma fraude com repercussão criminal. Também podem existir outras consequências jurídicas relacionadas ao uso indevido da imagem e à forma como os dados ou conteúdos foram obtidos e utilizados”, afirma Marcos Sá.

O advogado ressalta que não basta olhar apenas para a tecnologia empregada. A investigação precisa identificar quem criou o material, quem o divulgou, qual era a finalidade e se houve obtenção de vantagem.

E quem compartilha o conteúdo falso?

Outro comportamento que merece atenção é o compartilhamento. Muitas pessoas repassam vídeos ou mensagens fraudulentas acreditando que estão apenas divulgando uma informação interessante. Entretanto, dependendo da situação, compartilhar um conteúdo pode contribuir para a propagação do golpe.

“É importante diferenciar quem compartilha uma informação acreditando genuinamente que ela é verdadeira de quem participa conscientemente da fraude. A responsabilidade depende da conduta e do conhecimento que a pessoa tinha sobre a falsidade daquele conteúdo. Por isso, antes de compartilhar, é fundamental verificar a origem da publicação”, explica Fábio Aby Azar.

A recomendação vale especialmente para conteúdos que prometem dinheiro fácil, investimentos com retorno garantido, produtos milagrosos, sorteios, descontos muito acima do mercado ou supostas oportunidades oferecidas por celebridades.

Como saber se um vídeo de famoso é verdadeiro?

Não existe um único detalhe capaz de identificar todos os conteúdos produzidos por inteligência artificial. A estratégia mais segura é verificar a informação por diferentes caminhos.

O primeiro passo é procurar o conteúdo nos canais oficiais da própria pessoa. Se uma celebridade supostamente está divulgando um investimento, produto ou promoção, vale conferir se a publicação também aparece em seu perfil oficial.

Outra medida é observar o endereço eletrônico para o qual o anúncio direciona o usuário. Sites desconhecidos, páginas recém-criadas e solicitações de pagamento imediato devem aumentar o nível de desconfiança.

“Em situações que envolvem dinheiro, a pessoa precisa interromper o impulso de agir rapidamente. Verificar a informação em canais oficiais, pesquisar o nome da empresa envolvida e desconfiar de pedidos de pagamento ou transferência são atitudes simples que podem impedir uma fraude”, orienta Marcos Sá.

Fui vítima de um golpe com IA. O que fazer?

Caso a pessoa tenha enviado dinheiro, fornecido dados pessoais ou percebido que caiu em um golpe, a recomendação é agir rapidamente.

É importante guardar prints, links, números de telefone, mensagens, comprovantes de pagamento, vídeos e qualquer outra evidência relacionada à fraude. Também é recomendável comunicar imediatamente a instituição financeira quando houver movimentação bancária.

Dependendo do caso, pode ser necessário registrar um boletim de ocorrência e buscar orientação jurídica.

“Preservar as provas é fundamental. Muitas vezes, a vítima apaga mensagens ou perde informações importantes por vergonha ou por tentar resolver rapidamente o problema. Quanto mais elementos forem preservados, maiores são as possibilidades de reconstruir a dinâmica da fraude e identificar os responsáveis”, destaca Fábio Aby Azar.

A imagem das celebridades virou uma nova ferramenta para criminosos

O caso envolvendo Flávia Alessandra e Otaviano Costa mostra uma mudança importante no ambiente digital. A inteligência artificial não está apenas alterando a forma como conteúdos são produzidos, mas também criando novas possibilidades para crimes que exploram confiança, identidade e reputação.

Para os especialistas, a principal defesa ainda passa pela combinação entre tecnologia e comportamento: quanto mais convincente for o conteúdo, maior deve ser a preocupação do usuário em verificar sua autenticidade.

“A inteligência artificial tende a ficar cada vez mais sofisticada. Por isso, não podemos depender apenas da capacidade de perceber se uma imagem ou voz parece artificial. Precisamos desenvolver uma cultura de verificação. A pergunta deixou de ser apenas ‘isso parece verdadeiro?’ e passou a ser ‘qual é a fonte e como posso confirmar essa informação?’”, conclui Marcos Sá.

Em um ambiente digital no qual rosto e voz podem ser reproduzidos em poucos minutos, a recomendação dos advogados é simples: desconfie da urgência, confirme a informação em canais oficiais e nunca transfira dinheiro apenas porque um vídeo parece mostrar uma pessoa conhecida fazendo determinada recomendação. Afinal, na era da inteligência artificial, até a aparência da verdade pode ser fabricada.

(Fotos: Reprodução/Instagram)

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