Digitalização dos serviços financeiros e avanço de fraudes de identidade aumentam pressão sobre processos de KYC; automação ganha espaço para cruzar dados e identificar inconsistências antes do início do relacionamento comercial
A abertura de uma conta, a contratação de um serviço financeiro ou a entrada de um novo cliente corporativo tornaram-se pontos críticos para a prevenção de fraudes. Com a digitalização das operações e o crescimento das fintechs, plataformas de crédito e meios de pagamento, empresas passaram a processar um número muito maior de cadastros remotamente. Ao mesmo tempo, criminosos ganharam ferramentas mais sofisticadas para falsificar documentos e identidades.
O problema ganhou dimensão ainda maior nos últimos anos. Segundo o 2026 Global Financial Crime Report, da Nasdaq Verafin, cerca de US$ 4,4 trilhões em recursos ilícitos circularam pelo sistema financeiro global em 2025, US$ 1,3 trilhão a mais do que em 2023. No mesmo período, fraudes e golpes bancários provocaram perdas de US$ 579,4 bilhões em todo o mundo. O relatório chama atenção ainda para o uso crescente da inteligência artificial por organizações criminosas para ampliar a escala e a sofisticação das fraudes.
Nesse cenário, uma das principais discussões entre instituições financeiras, seguradoras, gestoras, empresas de meios de pagamento e outras companhias expostas a riscos financeiros e reputacionais está migrando para o primeiro contato com o cliente: quanto é possível saber sobre uma pessoa ou empresa antes de iniciar uma relação comercial?
“O momento da entrada é particularmente sensível porque uma falha de identificação pode fazer com que a empresa estabeleça uma relação que carregará riscos durante todo o ciclo daquele cliente. Quanto mais digital e rápida se torna a contratação, maior precisa ser a capacidade de verificar informações sem transformar o processo em um gargalo”, explica Alexandre Pegoraro, CEO do Kronoos.
Entre os riscos encontrados durante processos de Know Your Customer (KYC) estão documentos falsificados, empresas utilizadas para ocultação patrimonial, beneficiários finais não identificados, uso de “laranjas”, inconsistências cadastrais e vínculos com listas restritivas ou sanções internacionais. A inteligência artificial acrescentou uma nova camada ao problema. O Identity Fraud Report 2025, da Entrust, aponta crescimento das tentativas de fraude relacionadas à identidade digital, com uso de IA na criação de documentos falsos e manipulação biométrica.
Para as empresas, a consequência é que uma análise cadastral baseada apenas nos documentos fornecidos pelo próprio interessado pode não ser suficiente. Processos de KYC começam a incorporar o cruzamento de registros públicos, informações cadastrais e societárias, processos judiciais, listas de sanções e outras fontes para procurar divergências antes da aprovação. “A fraude deixou de ser necessariamente evidente. É possível ter documentos aparentemente consistentes e, ainda assim, encontrar problemas quando aquela informação é confrontada com outras bases. O desafio não é simplesmente coletar mais dados, mas conectar os dados certos para perceber aquilo que isoladamente não seria visível”, afirma o executivo.
É justamente nesse ponto que a automação do KYC começa a ganhar relevância. Em vez de analistas realizarem individualmente uma sequência de consultas e depois consolidarem as informações, sistemas especializados podem executar verificações simultâneas e direcionar para análise humana os casos que apresentam sinais de maior risco. Entre as verificações que podem ser automatizadas estão confirmação de identidade, situação cadastral, identificação de beneficiário final, consulta a listas de sanções, identificação de pessoas politicamente expostas (PEPs), mídia adversa e análise de estruturas societárias e empresas relacionadas.
A mudança não significa, entretanto, retirar o profissional de compliance da decisão. A tecnologia assume principalmente tarefas de coleta, consolidação e atualização das informações. A interpretação das ocorrências, classificação do risco e decisão sobre aceitar ou manter determinado relacionamento continuam dependendo das equipes especializadas. “Automatizar KYC não significa automatizar julgamento. A tecnologia consegue pesquisar milhares de informações em uma velocidade impossível para uma equipe humana, mas alguém precisa compreender o contexto e decidir o que aquele conjunto de evidências representa. O ganho está justamente em liberar o especialista do trabalho repetitivo para concentrá-lo na análise dos casos realmente relevantes”, diz Pegoraro.
Outro movimento importante é a passagem de uma lógica de verificação pontual para o monitoramento contínuo. Uma empresa considerada de baixo risco no momento da contratação pode posteriormente alterar seu quadro societário, aparecer em processos judiciais, entrar em uma lista restritiva ou protagonizar um evento reputacional relevante.
Esse acompanhamento ganha importância diante das próprias exigências regulatórias. No Brasil, Banco Central e Coaf estabeleceram critérios relacionados à identificação, qualificação, classificação de risco e atualização cadastral de clientes. A Resolução BCB nº 96/2021 determina a adoção de procedimentos compatíveis com o perfil de risco do cliente, da operação e do relacionamento comercial. E a preocupação começa a ultrapassar o sistema financeiro. Grandes empresas também vêm utilizando procedimentos semelhantes na avaliação de clientes corporativos, fornecedores, distribuidores, parceiros e terceiros submetidos às políticas internas de integridade.
“Durante muito tempo, conhecer o cliente foi tratado principalmente como uma obrigação de compliance. Com a sofisticação das fraudes e o aumento do risco reputacional, essa visão está mudando. Saber com quem a empresa está fazendo negócios passou a ser uma questão de proteção financeira, reputacional e de continuidade do próprio negócio”, conclui o executivo.
(Crédito: magnific)

