Terceiro curso mais procurado no Prouni 2026, Psicologia teve mais de 120 mil inscritos. Às vésperas do Dia do Psicólogo, o dado levanta uma questão: o que uma geração tão interessada em compreender a si mesma procura ao escolher uma profissão dedicada a compreender o outro?
Trauma, ansiedade, gatilho, narcisismo, relacionamento tóxico, limites, autocuidado. Palavras que durante muito tempo circularam principalmente entre consultórios e livros especializados hoje fazem parte das conversas, dos relacionamentos e das redes sociais. Nunca se falou tanto sobre saúde mental e talvez nenhuma geração tenha tido à disposição tanto vocabulário para tentar compreender aquilo que sente.
Esse interesse parece chegar também à escolha profissional. Na primeira edição do Prouni de 2026, Psicologia foi o terceiro curso mais procurado do país, com 120.436 inscritos, atrás apenas de Medicina, com 162.213, e Direito, com 148.280. Ao todo, 10.121 candidatos foram pré-selecionados para bolsas em Psicologia. Entre os mais de 827 mil participantes do programa, 470 mil tinham entre 18 e 20 anos e outros 237 mil, entre 21 e 30. As mulheres representaram 67% dos inscritos.
Os números não permitem saber por que cada estudante escolheu a profissão. Mas, às vésperas de 27 de agosto, Dia Nacional do Psicólogo, ajudam a formular uma pergunta sobre o lugar que a Psicologia passou a ocupar entre os jovens.
Para a psicóloga e psicanalista Camila Camaratta, o desejo de compreender a si mesmo pode ser uma das portas de entrada para a profissão, mas não é a única.
“É possível que alguns jovens cheguem à Psicologia movidos pelo desejo de conhecer mais sobre si mesmos. Mas também há o fascínio pelo funcionamento humano, a curiosidade pelo outro e aquela ideia muito presente entre estudantes de Psicologia de que escolheram a profissão porque querem ajudar as pessoas.”
Essa multiplicidade de motivações não é nova. Um estudo realizado no Rio Grande do Sul com estudantes que ingressavam no curso de Psicologia, publicado em 2001, encontrou entre as razões para a escolha profissional o desejo de ajudar, o fascínio pelo conhecimento psicológico, a busca por maior competência nas relações interpessoais e também o crescimento pessoal e o autoconhecimento.
O que parece ter mudado, mais de duas décadas depois, é o contexto em que essas motivações aparecem. Antes mesmo de entrar na universidade, um jovem hoje pode ter contato com um repertório psicológico que, em outras épocas, circulava quase exclusivamente entre profissionais e estudantes da área.
Vídeos e publicações nas redes sociais ensinam a identificar estilos de apego, reconhecer um narcisista, estabelecer limites, perceber traumas ou nomear relações tóxicas. Para Camaratta, a popularização desse vocabulário tem aspectos positivos, mas também produz um risco.
“Ter palavras para falar do sofrimento é uma conquista. O problema começa quando confundimos ter palavras para uma experiência com conhecê-la. Saber o nome das coisas não significa necessariamente saber sobre si.”
Embora a Psicologia se estenda muito além da clínica — a hospitais, escolas, organizações, instituições e políticas públicas —, é a partir de sua experiência clínica que Camaratta chama atenção para a diferença entre conhecer conceitos e tratar o próprio sofrimento.
“Nomear o que sentimos ou reconhecer padrões pode ser importante, mas compreender intelectualmente por que sofremos não significa necessariamente transformar aquilo que nos faz sofrer. É também por isso que procuramos uma pessoa qualificada para nos escutar.”
Para a psicanalista, há experiências que só se tornam possíveis na relação.
“O paciente não encontra apenas aquilo que retorna de sua história, mas a possibilidade de viver algo inédito, que pode surgir no encontro e no vínculo terapêutico que se estabelece.”
A escolha da Psicologia como profissão, porém, exige outro deslocamento: do interesse por si para a disponibilidade de conhecer o universo de outra pessoa.
A ampla circulação da linguagem psicológica acrescenta outro desafio. O próprio repertório, que deveria ampliar a compreensão, também pode ser usado para encerrar rapidamente uma pergunta.
“Querer ajudar alguém não significa necessariamente saber escutá-lo. Podemos aprender tantas categorias para compreender o outro que acabamos classificando antes de escutar. Quanto mais sabemos, mais precisamos reconhecer que nenhuma teoria esgota aquele que está diante de nós.”
Para Camaratta, essa disponibilidade é uma das exigências de uma profissão que tem no encontro com o outro uma de suas dimensões essenciais.
“Escutar alguém exige sair, por algum tempo, do centro da própria experiência. Cada pessoa é um mundo. É preciso estar disponível para conhecer uma experiência que pode não coincidir com a nossa, com nossos valores e nem mesmo com aquilo que imaginávamos encontrar.”
Em 27 de agosto de 1962, a Lei nº 4.119 regulamentou a profissão e os cursos de formação em Psicologia no Brasil. Mais de meio século depois, em 2016, a data foi oficialmente instituída como Dia Nacional do Psicólogo. Em 2026, são 64 anos de uma profissão que não apenas cresceu, mas passou a ocupar um lugar muito diferente na cultura.
Para Camaratta, querer conhecer a si mesmo pode ser uma boa porta de entrada para a Psicologia. A formação, no entanto, exigirá que essa curiosidade consiga atravessar a fronteira do próprio eu.
“Talvez o ‘conhece-te a ti mesmo’ continue levando muita gente até a Psicologia. Mas, para quem escolhe uma profissão dedicada à escuta, em algum momento será preciso sustentar uma segunda pergunta: és capaz de escutar aquilo que não és tu?”
(Crédito: Arquivo Pessoal)

