Mais de um em cada sete motoristas circulava sem seguro no país em 2023; especialista alerta que cobertura mínima pode não ser suficiente em acidentes graves

Ao contratar um seguro de automóvel nos Estados Unidos, muitos brasileiros se preocupam principalmente com o que acontecerá com o próprio carro em caso de roubo, colisão ou perda total. No sistema americano, porém, proteger o veículo representa apenas uma parte da apólice.

Uma das principais funções do seguro é cobrir a responsabilidade financeira do motorista pelos danos causados a terceiros. Quando os limites contratados são baixos, despesas médicas e prejuízos materiais podem ultrapassar a cobertura e deixar a família exposta a cobranças e processos.

A situação ganha ainda mais relevância diante do número de motoristas que circulam sem proteção suficiente. Em 2023, 15,4% dos condutores nos Estados Unidos não possuíam seguro, o equivalente a mais de um em cada sete. Outros 18% tinham cobertura insuficiente. Somados, os dois grupos representavam praticamente um em cada três motoristas do país, segundo o Insurance Research Council.

Para a especialista em seguros Edimara Dal Pozzo, a diferença entre os mercados brasileiro e americano ajuda a explicar os erros cometidos por quem chega aos Estados Unidos.

“No Brasil, o consumidor geralmente pensa primeiro na proteção do veículo. Nos Estados Unidos, é fundamental analisar também a responsabilidade civil, porque um acidente grave pode colocar em risco não apenas o carro, mas a estabilidade financeira da família”, explica.

Estar dentro da lei não significa estar totalmente protegido

As exigências variam de acordo com cada estado. Na Flórida, por exemplo, veículos registrados precisam manter pelo menos US$ 10 mil em Personal Injury Protection, o PIP, e US$ 10 mil em Property Damage Liability, o PDL.

O cumprimento dessa exigência, porém, não significa que todos os prejuízos de um acidente estarão cobertos. Os US$ 10 mil destinados a danos materiais podem ser insuficientes se o motorista atingir um veículo de alto valor, provocar uma colisão com vários carros ou causar danos a estruturas públicas e privadas.

“Um dos equívocos mais perigosos é acreditar que a cobertura mínima exigida pelo estado representa uma proteção completa. O mínimo legal pode estar muito distante do valor necessário para enfrentar um acidente de grandes proporções”, alerta Edimara.

Flórida registrou mais de 380 mil acidentes em um ano

Em 2024, a Flórida registrou 381.210 acidentes de trânsito e 3.184 mortes. Desse total, 97.902 ocorrências foram classificadas como casos de fuga do local do acidente, os chamados hit-and-run, segundo dados estaduais.

Uma estimativa do Insurance Research Council também apontou que 15,9% dos motoristas da Flórida estavam sem seguro em 2023, percentual superior à média nacional.

Para Edimara, os números mostram por que o motorista não deve avaliar apenas os próprios hábitos ao escolher as coberturas.

“Mesmo quem dirige com prudência pode ser atingido por uma pessoa sem seguro, com cobertura insuficiente ou que abandona o local. É necessário analisar como estará protegido diante do erro de outro motorista”, afirma.

Cobertura contra motoristas sem seguro merece atenção

Entre as proteções que podem ser avaliadas está a Uninsured/Underinsured Motorist, destinada a situações envolvendo um condutor sem seguro ou cuja apólice não seja suficiente para pagar os prejuízos.

Também devem ser analisadas as coberturas Collision e Comprehensive. A primeira está relacionada aos danos provocados por colisões no próprio veículo. A segunda pode contemplar roubo, vandalismo e determinados eventos naturais, conforme as condições do contrato.

Proteções como PIP e MedPay também podem ajudar no pagamento de despesas médicas do motorista e dos passageiros, dependendo do estado e da apólice.

Seguro barato pode esconder uma exposição elevada

Outro problema comum é escolher a apólice apenas pelo menor valor mensal. Uma proposta mais barata pode trazer franquia elevada, limites reduzidos ou ausência de coberturas importantes.

Na prática, a economia pode desaparecer no primeiro acidente. Caso o custo dos danos ultrapasse o valor previsto na apólice, o segurado poderá ter que assumir a diferença com recursos próprios.

O impacto econômico dos acidentes ajuda a dimensionar o risco. Estudo da National Highway Traffic Safety Administration calculou que os acidentes registrados nos Estados Unidos em 2019 geraram US$ 340 bilhões em custos econômicos, incluindo despesas médicas, danos materiais e perda de produtividade.

“O seguro não deve ser analisado apenas pelo que custa todos os meses, mas pelo quanto será capaz de pagar quando realmente for necessário. Uma pequena economia na mensalidade pode representar uma perda muito maior depois”, ressalta Edimara.

Omissão de motoristas pode comprometer a cobertura

Brasileiros também podem cometer erros ao deixar de informar todos os motoristas que residem na mesma casa ou utilizam o veículo com frequência. Em alguns casos, a omissão ocorre na tentativa de reduzir o valor da apólice.

Segundo Edimara, a falta de transparência pode gerar questionamentos durante a análise de um sinistro, justamente quando o segurado mais precisa da cobertura.

Idade, endereço, modelo do veículo, histórico de acidentes, multas e, onde permitido, informações relacionadas ao crédito também podem influenciar o valor do seguro.

O que fazer depois de um acidente

Depois de uma colisão, a prioridade deve ser verificar se há feridos e colocar as pessoas em segurança. O motorista deve acionar as autoridades quando necessário, registrar fotos dos veículos, placas, danos e condições da via, além de coletar os dados dos demais envolvidos.

Edimara também orienta que não sejam feitos acordos informais ou declarações precipitadas de culpa no local. A seguradora ou agência responsável deve ser comunicada rapidamente.

Seguro de carro também é proteção patrimonial

Para a especialista, a principal mudança de mentalidade está em compreender que o seguro não serve apenas para reparar ou substituir o veículo.

“Nos Estados Unidos, uma boa apólice funciona como uma proteção patrimonial. O motorista precisa pensar no carro, mas também nas despesas médicas, nos danos causados a terceiros e na possibilidade de ser atingido por alguém sem cobertura suficiente”, conclui Edimara Dal Pozzo.

Antes de contratar ou renovar o seguro, a recomendação é revisar os limites da apólice e avaliar se eles são compatíveis com a realidade financeira da família. Afinal, estar segurado não significa necessariamente estar bem protegido.

Edimara Dal Pozzo

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